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Como Keke Rosberg se transformou num dos maiores campeões da história da Fórmula Vee

Como Keke Rosberg se transformou num dos maiores campeões da história da Fórmula Vee

O finlandês começou pilotando kart para buscar leite na fazenda e brigou com o pai para competir na FVee.
Depois, correu pela Copersusar e foi campeão mundial de F1.

Por Fernando Santos

Em memória de Ricardo Divila e com agradecimento especial à Itoby Filmes

 

Keke Rosberg é mais conhecido por ter iniciado a sua carreira na Fórmula 1 na equipe Copersucar-Fittipaldi - na verdade, onde ele começou a se destacar. Após deixar a única escuderia brasileira na história da categoria, ele foi campeão mundial pela Williams. Mas antes, o piloto finlandês, nascido na Suécia, se tornou um dos maiores nomes da Fórmula Vee.

Em 1973, Keke Rosberg dominou a FVee na Europa. Ganhou tudo o que podia, incluindo os campeonatos finlandês, escandinavo e o europeu. A supremacia foi tamanha que no auge de sua carreira na categoria, na temporada que contou com 16 provas, ele ganhou 13 (sendo 12 consecutivas).

Como costuma-se dizer, não tinha pra ninguém. Mas não foi fácil. Keke superou dificuldades financeiras e teve ainda que brigar com o pai para iniciar a carreira na FVee. Uma lição que ele fez questão de não passar para o filho Nico, também campeão mundial de F1.

 

Keke Rosberg a bordo de seu primeiro FVee (nº 25), o Veemax MK IVC que comprou em 1972 após brigar com o pai (crédito: reprodução internet).

 

O relato histórico e as declarações de Keke Rosberg neste texto foram dadas ao projetista Ricardo Divila, amigo e ex-companheiro na Fórmula 1. Divila, que morreu em abril deste ano, fez a entrevista em 2019 para a Itoby Filmes, responsável pela produção do filme que conta a história da equipe Copersucar-Fittipaldi na Fórmula 1.

 

Correndo de kart na fazenda para buscar leite

Keijo Erik Rosberg nasceu em Solna, uma pequena cidade nos arredores de Estocolmo, na Suécia, e logo ganhou o apelido de Keke, maneira mais simples de chamá-lo. Seu pai havia se mudado junto com a mãe, também finlandesa, para estudar veterinária. O jovem casal tinha um hobby em comum: disputar corridas de rali. E neste ponto, Lea Aino Marjatta Rosberg se destacou mais do que o marido, ao vencer algumas provas importantes.

A paixão dos Rosberg pelas corridas de rali resistiu até meados da década de 60, quando os custos de competição subiram e a família escolheu um outro caminho. Ainda cuidando de sua clínica veterinária, Lars Erik Rosberg escolheu uma opção mais barata para se manter no automobilismo: ele se transformou num dos pioneiros do início do kart na Finlândia e chegou até a ser presidente da federação local.

O garoto Keke acompanhava as aventuras dos pais nas suas últimas provas de rali e também com a chegada do kart. E logo tomou gosto do novo brinquedinho. Ele começou a pilotar de uma forma muito peculiar: pegava o kart dos pais toda a manhã para buscar leite numa fazenda, dividindo estradas rurais de terra no norte da Finlândia com ônibus e caminhões. “Outros tempos, outro tipo de vida”, como disse.

E o jovem Rosberg tomou mesmo gosto pelas corridas. De 1966 a 1970, ele ganhou três vezes o campeonato finlandês de kart e uma vez a competição escandinava. Já era um dos mais promissores nomes do automobilismo local.

Em 1970, Keke disputou o Campeonato Mundial de Kart, em Paris. Com recursos limitados, ele só contava com um motor e sua equipe consistia apenas do seu pai, que fazia o papel de mecânico. Não tinham dinheiro para pagar hotel e passaram as noites acampados no kartdódromo.

Na competição francesa, outros pilotos chegavam a ter até 30 motores à disposição. Mesmo assim, o pequeno Rosberg fez a pole position no Mundial. “Algo que me orgulho até hoje”, contou. Na prova, terminou em quinto, após uma falha na ignição. “Foi a melhor colocação até então de um piloto finlandês no Mundial de kart.

 

A briga com o pai para correr de FVee

Na época, o kart já estava ficando pequeno demais e o rali continuava caro. E a Finlândia começava a conhecer uma categoria que já fazia sucesso em toda a Europa por seu baixo custo e alta competitividade: a Fórmula Vee. Foi um momento marcante na carreira e na família Rosberg.

Quando ainda competia de kart, Keke passou a comercializar peças para bancar os custos. Ele ainda estava começando a trabalhar em sua recém-criada empresa de informática no desenvolvimento de softwares, na ocasião em que a indústria de computadores estava nascendo. Mas o investimento na FVee era bem maior e seguia fora do orçamento familiar.

Lars Rosberg advertiu o filho: “O automobilismo é maravilhoso, mas é muito caro e se você não entender como sair cedo o suficiente, você irá se arruinar financeiramente”. É claro que ele não seguiu o conselho do pai, o que provocou um racha na família, mesmo explicando que os tempos eram outros, em razão dos patrocinadores e prêmios em dinheiro.

Keke preferiu seguir a orientação de um amigo que também trabalhava no ramo de informática e estava ligado à associação local da Fórmula Vee. Ele indicou um carro usado, em bom estado, com apenas três corridas disputadas. “Mesmo assim, não tinha dinheiro, era muito para mim na época. Mas consegui pedir emprestado, de várias pessoas, e pude assim comprar meu primeiro FVee.

 

Dívida paga

Com o dinheiro arrecadado numa verdadeira “vaquinha”, inclusive de seu próprio pai, Keke Rosberg comprou um Veemax IV C. Não era um dos melhores carros da época. A marca havia sido criada pelo piloto e engenheiro finlandês Max Johansson em 1966.

Com o Veemax, Keke não conseguiu vencer em sua primeira temporada na FVee. Seu melhor resultado foi um segundo lugar (duas vezes). Mesmo assim, e com um carro não tão competitivo, ainda ficou com a terceira colocação no campeonato finlandês. No campeonato escandinavo, há divergências, com fontes citando o segundo e outra o quarto lugar.

Porém, a temporada inaugural teve um alto ponto positivo: Keke conseguiu pagar todos os empréstimos, inclusive o de seu pai, que insistiu em seguir a postura de contrariedade. Eles não se falavam havia um ano, e ao ligar para avisar que estava devolvendo o dinheiro, o pai simplesmente virou-se e disse: “Mãe, seu filho está no telefone.

 

“Finlandês Voador”

Além de quitar todas as dívidas, ainda sobrou dinheiro. E desta vez a escolha foi por um top de linha. Keke comprou um Hansen IV B. Este era um modelo construído pelo americano Jerry Hansen, que também foi piloto e correu na FVee nos EUA nos anos 1960.

Foi com este carro, número 3, que Keke Rosberg cravou seu nome na história da Fórmula Vee. “Ganhei tudo o que podia, acho que todas as corridas que disputei naquele ano”, lembra. Foi quase isso.

O jovem piloto sagrou-se campeão nacional, escandinavo e europeu. Ele somou ao todo 13 vitórias (sendo 12 consecutivas) em 16 provas realizadas, segundo o registro histórico da Federação Finlandesa de Automobilismo.

Seu desempenho extraordinário na FVee chamou a atenção para participar também das chamadas “corridas no gelo”, tradicionais no país. A bordo de um Sunbeam 900, ele disputou seis provas e venceu três.

 

Keke Rosberg com um Kaimann (nº 2) pela Super-V (crédito: Paul Kooyman/portal kekerosberg.com).
Na sequência, Keke Rosberg com o Williams (nº 5) com o qual se tornou campeão mundial de Fórmula 1, em 1982 (crédito: Paul Kooyman/portal kekerosberg.com).

 

Ainda em 1973, Keke foi convidado para testar um Karringer. Na época, os construtores de Fórmula Vee estavam desenvolvendo modelos mais rápidos e potentes. Este carro foi criado com a engenhosidade do alemão Horst Karr, um ex-funcionário da Bosch bem relacionado com a fábrica da Porsche em Stuttgart, responsável pela criação da FVee na Alemanha e na Europa. Karr teve ainda a ajuda de um fabricante de aviões para aprimorar a carenagem e o efeito aerodinâmico.

Era quase um foguete comparado aos demais carros da categoria. O Karringer atingiu 115 hp graças a melhorias técnicas como a instalação de dois carburadores, utilização de resfriamento por fluxo de ar, lubrificação por cárter seco e novos amortecedores dianteiros. Era um enorme avanço tecnológico na categoria, um passo para a Super-V.

Num teste em Nurburgring, em sua extensa pista de 22 km (havia sido criada originalmente com 28 km), Keke Rosberg completou uma volta com o Karringer em 8min56s2, com a velocidade média de 153,3 km/h, extremamente alta para uma categoria com motor de 1300 cc.

Como comparação, os carros atuais da Fórmula Vee que disputam o Campeonato Paulista em Interlagos não passam dos 130 km/h em média, mesmo com motor de 1600 cc.

Pode-se dizer que nascia ali o apelido de “Finlandês Voador”.

 

Títulos, carros, tênis, festas e a F1

Em seguida a sua carreira vitoriosa na FVee, Keke Rosberg fez sucesso na Super-V. Ele pilotou os famosos Kaimann, os bólidos produzidos na Áustria que deram início a outra lenda do automobilismo: Niki Lauda.

O finlandês ganhou três títulos na Super-V, incluindo o campeonato alemão de 1975 (o mais importante) e o sueco. E conheceu o lado bom vivant do automobilismo. Pela primeira vez, ele passava a ser pago para competir. Decidiu então largar a empresa de informática que havia fundado e dedicar-se inteiramente às corridas.

Naquela época, os prêmios na Fórmula Vee eram muito bons. Resolvi tirar um ano de férias da minha empresa de informática e depois avisei que não voltaria mais. Eu me mudei para a Inglaterra, onde comprei um Jaguar novinho e tinha a vida que queria, dirigindo carros, jogando tênis, participando de festas...

Ele tentou competir na Fórmula 3, o passo seguinte, mas desistiu por conta dos altos custos. Preferiu seguir na Super-V, bem mais econômica e que ainda lhe rendia todos os prazeres que deseja.

 

Keke Rosberg na Fórmula Super-V, onde ganhou três títulos (crédito: reprodução internet).

 

Keke se aventurou ainda por diversas categorias como Fórmula Atlantic, Fórmula Pacific e Fórmula 2, que disputou inclusive paralelamente durante os seus primeiros anos na F1.

A estreia na principal categoria do automobilismo mundial foi pela Theodore, em 1978, ano em que correu também pela ATS. Ao todo, largou em seis provas e seu melhor resultado foi um 10º lugar. O que mais chamou a atenção é que Rosberg já era um piloto com 29 anos, uma idade avançada para começar na F1, mesmo naquela época.

Em 1979, Keke competiu pela equipe Wolf. Foram também poucas provas, apenas sete, com um modesto 9º lugar para justificar seu melhor desempenho. Mas já havia pelo menos um chefe de equipe de olho nele, e que soube reconhecer seu talento. E era um brasileiro.

 

Bem-vindo à Copersucar!

Wilson Fittipaldi Júnior criou a equipe inicialmente chamada de Copersucar em 1974 (correu de 1975 a 1982), com a ajuda de seu irmão, Emerson. Nos primeiros anos, ele já havia notado algo naquele veterano piloto finlandês que estava apenas começando na Fórmula 1.

 

Keke Rosberg (nº 21) em sua primeira temporada na equipe Fittipaldi na F1 (crédito: Facebook Copersucar Fittipaldi F1). No detalhe, a apresentação da equipe Fittipaldi em 1980, com Keke Rosberg ao lado de Emerson (dentro do carro) e Wilsinho em pé, primeiro à direita (crédito: Facebook Copersucar Fittipaldi F1).

 

O curioso é que os dois, com passagens históricas pela Fórmula Vee, nunca conversaram sobre a categoria. Wilsinho foi um dos responsáveis pela criação da FVee no Brasil em 1967 e hoje trabalha como consultor-técnico e instrutor de jovens pilotos.

É assim que Wilson Fittipaldi Júnior se recorda de Keke Rosberg:

Eu já o acompanhava há algum tempo, nas provas de Fórmula 2, principalmente, e claro na F1. Mas nunca falamos de Fórmula Vee. Chegamos a conversar algumas vezes, houve uma sondagem preliminar. Eu ficava sempre pensando se deveria chamá-lo para correr na nossa equipe. Comentei com o Ricardo (Divila), que me falou: “Ele é bom pra chuchu”.

Pesquisamos em seguida e encontramos algumas reportagens que traziam vários elogios a ele. Então, numa época que estava no Brasil e precisava ir à Inglaterra para comprar equipamentos para a temporada de 1980 da F1, decidi me encontrar com ele e fazer o convite.

Quer guiar para a gente?”, perguntei. Ele aceitou na hora.

Keke e o Ricardo ficaram muito amigos. Eles tinham algo em comum: fumavam demais. Eu dizia que era a Equipe Fumaça. Como eu nunca fumei, aquilo até atrapalhava.

O Keke era muito rápido e mostrou isso na sua primeira prova com a gente. Foi no GP da Argentina, em 1980, na abertura da temporada. Logo no primeiro treino livre, na sexta-feira, ele andou tão rápido que passou dos limites, bateu e destruiu o carro, apesar de não afetar a parte estrutural. Foi parar no hospital para fazer uma revisão, como dizíamos. Eu fui visitá-lo e o médico disse que não era nada demais, que ele poderia sentir um pouco de dor de cabeça mas estava pronto para voltar à pista.

E o Keke voltou. E bateu de novo, no sábado. Era o treino classificatório. Ele estava realmente muito rápido e eu acreditava que poderia dar pole. Imagina, largarmos na frente logo na primeira corrida do ano. Seria fantástico. Mas a três curvas do final, ele sofreu outro acidente. Os mecânicos ficaram loucos. Eles já haviam trabalhado a noite anterior inteira e sabiam que teriam mais trabalho pela frente. O Keke voltou para os boxes e me pediu desculpas. Eu disse apenas que ele poderia ter feito a pole.

Apesar das duas batidas nos treinos, o Keke largou em 13º lugar. O Emerson saiu em 24º. No final, o finlandês terminou em terceiro (a vitória foi de Alan Jones, com Nelson Piquet em segundo; Emerson, com problemas, completou apenas 37 das 54 voltas). O Keke ficou com a gente até 1981 e depois foi para a Williams, onde ganhou o título já em 1982. Bem, acho que eu estava certo quando decidi contratá-lo.

 

Das pistas para o cinema

Após muito tempo, Wilsinho e Keke Rosberg voltaram a se falar no ano passado, para acertar a gravação da entrevista com Ricardo Divila para o filme “As Asas de Ícaro – A Verdadeira História da Equipe Fittipaldi”, que está em fase final de produção pela Itoby Filmes. Ainda inédita, foi a primeira entrevista de Keke em mais de 10 anos, segundo ele.

Confira aqui um trailer do filme, ainda sem a participação de Keke Rosberg: https://www.youtube.com/watch?v=vemLDEcG458&t=4s

 

Keke Rosberg na entrevista a Ricardo Divila para o filme "As Asas de Ícaro - A Verdadeira História da Equipe Fittipaldi" (crédito: reprodução/Itoby Filmes).
Na sequência, o primeiro carro de Keke Rosberg na FVee, restaurado (crédito: Tommi Nummelon).

 

Durante anos, o finlandês evitou os microfones. Em 2018, ele deu um depoimento para o canal do Youtube do filho, explicando porque se afastou do mundo do automobilismo: “Começou pelo seguinte: pilotos atuais do grid são difíceis de entrevistar. Então (os jornalistas pensam), papai está ali e não tem nada para fazer, vamos falar com ele. Eu me vi no centro das atenções muito mais do que deveria pelo meu próprio mérito, apenas para falar dele (Nico). E eu disse: “Não, não posso continuar com isso”. Parei com tudo categoricamente e me tornei um recluso.

 

Keke Rosberg com Nico, em depoimento ao canal do filho no YouTube em 2018 (crédito: reprodução YouTube).

 

E completou: “Eu recebi uma mensagem da minha esposa, que havia recebido uma mensagem do Nico (sobre a sua saída da F1 após ser campeão mundial). A última frase era: “Por favor, conte ao papai também”. Quando eu me aposentei, meus melhores amigos perguntaram por que eu estava fazendo aquilo, que era muito cedo, que eu fazia muito dinheiro e me divertia… É uma decisão muito pessoal. Quando o Nico se aposentou, me senti sem ar, socado no estômago por um tempo. Mas isso é a reação imediata por não esperar aquilo. E aí você entende que é a vida dele, a escolha dele… Se ele decidiu que era hora de parar, então era hora de parar.

Assista ao depoimento de Keke ao lado de Nico aqui, que contou com a participação do ex-piloto Martin Brundle, durante uma exibição de pai e filho pelas ruas de Mônaco, onde se reuniram para guiar seus carros campeões na F1: https://www.youtube.com/watch?time_continue=253&v=C1cPThvSeeY&feature=emb_logo

Quando decidiu aceitar o pedido de Wilsinho para a gravação do filme, o finlandês estava bem-humorado e conversou por mais de duas horas com Ricardo Divila, num hotel em Ibiza, na Espanha. Falou sobre a sua história na Fórmula 1, a Copersucar (claro!) e, como descrito acima, também sobre a Fórmula Vee. E depois, avisou: vai continuar correndo das entrevistas.

 

 

 

 


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